Minaria em Triacastela

Triacastela: uma ferida a céu Aberto

Marcos Celeiro

No coração de Triacastela há uma indignante ferida, a mina a céu aberto de Cementos Cosmos. É um grande buraco que tudo engole. Engole a nossa terra, mas também a nós próprios. É a nada que avança, a ameaça constante que tudo destroi e pulveriza. Dela extraem a caliza para a fabricação do cimento para infraestruturas absurdas –como portos exteriores e AVEs– ou para o boom urbanizador dos especuladores, criando assim ainda mais destrução no destino dos recursos. O «bem social» desse processo é o lucro dos poucos a conta da ruina dos muitos.

Os lucros são muito elevados quando as terras acaparadas são roubadas, se está isento de impostos e inchado a subvenções, se incumpre impunemente a legislação, não se exigem garantias, se tem a administração e justiça ao seu serviço, e existe de facto um «direito de pernada» que passa acima de tudo. E de todas e todos. Levam o bom, deixam o mau. As práticas desta máfia mineira chegaram cá nos anos 70, com privilégios que lhes deu a ditadura franquista, e aqui continua, com privilégios que lhes dá a ditadura atual que, de facto, continua a reger-se por essa mesma legislação franquista, desenvolvida só para adaptá-la a uma mais eficiente depredação no neoliberalismo.

Os «nativos» imos vendo como desaparecem e desaparecerão para sempre os lugares da nossa infância, o nosso jeito de vida, a sociedade e a cultura aos que estamos fortemente ligados. É uma mutilação duma parte de nós que dói muito. Até dói mais no espiritual do que no material. Desde a visão economicista, também destrói as atividades económicas locais que se desenvolvem ou se poderiam desenvolver. É a destruição irreversível do sustento e economia de centos de pessoas. Sobre isso proclama-se uma atividade duns poucos –dá emprego a 2 vizinhos na mina e 4 na fábrica do Bierzo a 70Km– ameaçando a atividade agrária de 6 aldeias, e a hostaleira de todo o concelho. Tem data de caducidade, pois qualquer recurso mineiro é finito, e depois só há deserto. Além disso, destrói a coexão social e a comunidade, dividindo a gente entre partidários e detratores. Envenena as relações pessoais. Envenena a vida política, pois a empresa intervém, condiciona e controla as políticas das administrações, que fazem o possível por expulsar-nos daqui. A maldição que nos caiu acima supera em muito a da atividade mineira.

Porém não só é um problema local. Esta mina está sobre a importantíssima jázida arqueológica da Cova de Eirós, que é património de todos. Como também é o rio que bebe e deixa seco, e o património natural que arrasa. Não só é usurpação de montes comunais, terras particulares, e caminhos duns vizinhos, é destruição do património dum povo, e até da humanidade, como assim é declarado o Caminho de Santiago que este buraco ornamenta.

No movimento de oposição vizinhal não só nos impulsam ideias, senão principalmente a necessidade, e o mais elementar instinto de supervivência. Ora bem, após uma década de luta, já há algo irrenunciável que prevalece acima de tudo: a dignidade.

Marcos Celeiro é o presidente da Associação Socio-Cultural O Iríbio, membro da rede de coletivos ContraMINAcción, e militante do Partido da Terra da Vila Velha de Triacastela.

{Este artigo foi publicado na revista mensal de informação e opinião para o debate TEMPOS NOVOS, no número 216 de maio de 2015]

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